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A cultura de otimização extrema do sono e as promessas de um sono reparador

Sumário

Nós sabemos que dormir mal afeta de forma significativa vários parâmetros da nossa saúde física e mental, como por exemplo: humor, memória, imunidade e risco cardiovascular. Isso impulsionou uma escalada na busca por meios tecnológicos para otimizar o sono e contornar as dificuldades em torno desse ato. Hoje temos anéis inteligentes, relógios, rotina de rituais noturnos elaborados e diversos suplementos que prometem entregar uma qualidade melhor de sono. Mas será que essas ferramentas já não estão deixando alguns “efeitos colaterais”?

Os “wearables”

Anéis e relógios inteligentes ficaram muito bons em uma tarefa específica: distinguir se você está dormindo ou acordado. Estudos que compararam esses dispositivos ao exame padrão-ouro, a polissonografia, encontraram sensibilidade acima de 95% só para essa distinção básica.

O problema aparece quando o aparelho tenta dizer em qual fase do sono você está (sono leve, profundo ou REM), aí a precisão cai bastante. Em um estudo comparando os três dispositivos mais usados, um deles chegou a subestimar o sono profundo em 43 minutos por noite; mesmo o anel, hoje considerado o mais preciso dos três, teve baixa concordância na quantidade total de sono profundo detectada noite a noite, apesar de identificar razoavelmente bem os episódios isolados. Ou seja: o número de episódios de “sono profundo” que aparecem no seu app podem estar sistematicamente errados.

Isso importa clinicamente porque gerou um fenômeno com nome próprio: ortossonia (orthosomnia), a ansiedade de tentar atingir uma pontuação de sono “perfeita” segundo o aparelho. A pessoa acorda, olha o app antes de sentir como realmente descansou, e a nota vira o critério de como foi a noite, mesmo quando o número é impreciso por natureza. Para quem já tem tendência à ansiedade ou ao pensamento perfeccionista, isso pode transformar uma ferramenta de autoconhecimento em mais uma fonte de vigilância e frustração antes de dormir.

Dicas:

  • Uso possível e razoável: observar tendências ao longo de semanas (horário de dormir, regularidade), não o número de uma noite isolada.
  • Uso problemático: checar a pontuação todo dia e deixar que ela dite o humor ou o nível de preocupação.

Rituais: quando a rotina vira regra rígida demais

Boa higiene do sono é uma recomendação padrão nos consultórios de saúde mental. Horários regulares, luz natural pela manhã, menos telas antes de deitar. São todas medidas que possuem respaldo consistente na literatura. O que mudou recentemente são algumas tendências: fita adesiva na boca para “forçar” respiração nasal, banho gelado cronometrado, sequências de dez passos antes de deitar, ambientes de quarto tratados como um set de estúdio.

Aqui entra um paradoxo bem descrito em psiquiatria do sono: regras demais sobre como dormir tendem a aumentar a ativação e a ansiedade antecipatória em relação à noite, exatamente o oposto do relaxamento necessário para pegar no sono. Quanto mais elaborado o ritual, maior a pressão percebida para que ele “funcione” e maior a frustração quando uma noite foge do roteiro. Rituais simples e curtos ajudam. Rituais extensos e rígidos, cujo objetivo se torna performar o sono perfeito, costumam sabotar o próprio sono.

Suplementos: evidência real, mas modesta

O magnésio, sobretudo na forma de glicinato, é hoje o suplemento mais promovido para sono e ansiedade nas redes. A evidência existe, mas é mais modesta do que o marketing sugere: uma revisão sistemática recente encontrou melhora em parâmetros de sono em cinco de oito estudos analisados, e melhora de ansiedade em cinco de sete — resultados favoráveis, mas baseados majoritariamente em relatos subjetivos dos participantes e amostras pequenas. Os próprios autores da revisão pedem estudos maiores antes de qualquer conclusão definitiva.

A melatonina é outro caso à parte: é um hormônio, não um “sedativo suave”, e seu uso fora de orientação médica, em dose errada, horário errado ou por tempo prolongado pode desregular ainda mais o ritmo circadiano em vez de corrigi-lo. O aumento do uso não supervisionado, inclusive em crianças, é hoje motivo de preocupação entre especialistas em sono.

Nenhum suplemento substitui investigação de causa quando a insônia é persistente. Frequentemente, o que subjaz a uma “insônia” que não melhora com nenhum produto é ansiedade, depressão, apneia do sono não diagnosticada ou uso de substâncias, que são questões que suplemento nenhum resolve.

O que fica no fim das contas

O se importar com o sono não é errado. O que é preciso tomar cuidado é quando o dormir se transforma em uma tarefa de performance, monitorada e otimizada como um treino de academia. Dados, rituais e suplementos têm seu lugar como coadjuvantes de uma rotina saudável, nunca como substitutos de avaliação profissional quando o problema persiste.

Quando a dificuldade para dormir já dura semanas, vem acompanhada de ansiedade importante em relação à própria noite, ou de sonolência diurna significativa, o passo mais eficaz costuma ser uma avaliação clínica e, quando indicado, terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCCi) não mais um aparelho ou mais um frasco na prateleira.

Bibliografia

  1. Accuracy of Three Commercial Wearable Devices for Sleep Tracking in Healthy Adults — PMC
  2. Performance of wearable finger ring trackers for diagnostic sleep measurement — Scientific Report

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Redator do Site MentalDoc

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