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Existência do futebol sem as bets foi tema de discussão recente. Enquanto isso, os transtornos mentais relacionados às bets seguem aumentando.

Sumário

Nas últimas semanas, o futebol brasileiro tem sido notícia por um motivo pouco relacionado aos campeonatos em andamento. A Polícia Federal criou, em maio deste ano, um grupo específico, o “Base Apostas”, para investigar manipulação de resultados esportivos e fraudes em bets, depois de um escândalo que já levou o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) a marcar julgamentos e colocou até um cartão amarelo sob suspeita em uma partida do Brasileirão.

Em paralelo, o governo federal instituiu uma Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento à Manipulação de Resultados Esportivos. O noticiário foca nos jogadores e nos esquemas. Mas por trás desse cenário existe uma pergunta que interessa diretamente à psiquiatria: o que está acontecendo com quem aposta?

Um mercado que cresceu rápido demais para o cuidado acompanhar

Uma pesquisa do DataSenado de 2024, com mais de 21 mil pessoas, mostrou que 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais já haviam feito apostas esportivas nos 30 dias anteriores, o equivalente a cerca de 22 milhões de pessoas, com prevalência maior entre homens e jovens.

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta transtorno do jogo. Multiplicado pelo volume de apostadores no Brasil, esse não é mais um problema marginal: é uma questão de saúde pública que cresceu na mesma velocidade que o patrocínio das bets nas camisas dos times.

Quando a aposta deixa de ser lazer

O transtorno do jogo é reconhecido pelo DSM-5-TR como um transtorno psiquiátrico, com critérios que vão muito além de “gastar mais do que devia”: necessidade progressiva de apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma excitação, irritabilidade ao tentar reduzir ou parar, tentativas repetidas e malsucedidas de controlar o comportamento, preocupação persistente com apostas mesmo fora do momento do jogo, apostar como forma de lidar com estados emocionais negativos, tentar recuperar perdas apostando mais (“perseguir a perda”), esconder de familiares a real extensão do envolvimento, e prejuízo em relacionamentos, trabalho ou estudos. Basta identificar quatro desses critérios em um período de 12 meses para caracterizar o quadro clinicamente.

A comorbidade é a regra, não a exceção…

O dado mais relevante para quem pensa em apostas como um problema isolado é este: aproximadamente 90% das pessoas com transtorno do jogo apresentam pelo menos outro transtorno mental diagnosticável, e mais de 60% convivem com três ou mais comorbidades psiquiátricas simultâneas.

As associações mais consistentes na literatura envolvem depressão e transtorno bipolar, transtornos de ansiedade, TDAH e impulsividade, transtornos por uso de substâncias e alterações do sono. Ou seja: raramente a aposta compulsiva aparece sozinha. Na maioria das vezes, ela é parte de um quadro mais amplo, funcionando tanto como sintoma quanto como forma (disfuncional) de regular um sofrimento que já existia antes.

O ponto mais grave dessa relação é o risco de comportamento suicida. Estudos internacionais mostram que cerca de um em cada cinco pacientes com transtorno do jogo já tentou suicídio, e que pessoas com o transtorno têm até seis vezes mais chance de apresentar ideação suicida e quinze vezes mais chance de tentativa, em comparação com a população geral. Mesmo quando se exclui o efeito de depressão associada e das dificuldades financeiras, o risco permanece cerca de três vezes maior. E, apesar disso, apenas 8% dos apostadores problemáticos chegam a procurar ajuda profissional.

Por que apostas em futebol são particularmente propícias ao problema

O formato específico das bets esportivas: apostas ao vivo, odds que mudam a cada lance, possibilidade de apostar durante o próprio jogo, notificações constantes e a proximidade emocional com o time do coração reúne praticamente todos os ingredientes que a literatura associa a maior risco de desenvolvimento do transtorno: reforço intermitente, sensação de quase-vitória e um gatilho emocional (o jogo do time) que se repete semanalmente. Isso ajuda a explicar por que o fenômeno cresceu tão rápido justamente ancorado no futebol.

Importância desses dados

Vemos que o Transtorno de Jogo já é uma questão de saúde pública. Por isso, se apostar deixou de ser uma diversão ocasional e passou a ocupar espaço desproporcional no seu tempo, no seu orçamento ou no seu humor ou, se você reconhece esse padrão em alguém próximo, vale conversar com um psiquiatra.

Assim como qualquer outro transtorno, quanto antes identificado, mais simples costuma ser o tratamento, e o mais importante nesse caso é avaliar com cuidado o que pode estar por trás do comportamento, não apenas o comportamento em si. O Ministério da Saúde lançou este ano um guia nacional de cuidado voltado especificamente a problemas relacionados a jogos de apostas, reconhecendo a dimensão que o tema já tomou no país.

Se você está passando por algo relacionado a esse tema e sentindo que não consegue lidar com isso sozinho, buscar apoio profissional é um passo válido e importante.

Referências:

  1. STJD marca julgamento de atletas envolvidos no escândalo das apostas esportivas
  2. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas – Ministério da Saúde

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Redator do Site MentalDoc

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