Por Dra. Jennyfer Domingues — Psiquiatra | Doutoranda UNICAMP
Durante muito tempo, transtornos de ansiedade foram tratados como algo “menor” dentro da saúde mental. Como se ansiedade fosse apenas excesso de preocupação, nervosismo ou dificuldade para relaxar.
Mas a ciência vem mostrando uma realidade muito mais séria: ansiedade crônica não afeta apenas a qualidade de vida. Ela também pode impactar mortalidade, saúde cardiovascular e risco de suicídio.
Um novo estudo publicado na revista científica World Psychiatry reuniu dados de mais de 7 milhões de pessoas e trouxe um dos retratos mais completos já feitos sobre o impacto dos transtornos de ansiedade na saúde física e mental.
O que o estudo analisou?
Pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise com 165 estudos, envolvendo:
- Mais de 7,3 milhões de pessoas com transtornos de ansiedade ou relacionados ao estresse
- Mais de 135 milhões de controles
- Dados de 27 países diferentes
Foram avaliados:
- Mortalidade geral
- Mortalidade por suicídio
- Tentativa de suicídio
- Mortalidade cardiovascular
- Mortalidade por causas naturais
- Diferenças entre transtorno de ansiedade generalizada (TAG), pânico, fobias e TEPT
O principal achado: ansiedade aumenta risco de mortalidade
O estudo encontrou aumento significativo de mortalidade em pessoas com transtornos de ansiedade e transtornos relacionados ao estresse.
Os dados mostraram:
- 54% maior risco de mortalidade geral
- 188% maior risco de morte por suicídio
- Maior risco de doenças cardiovasculares
- Maior risco de tentativa de suicídio
Isso muda completamente a forma como enxergamos ansiedade.
Não estamos falando apenas de sofrimento emocional. Estamos falando de um quadro que pode gerar impacto sistêmico no organismo.
Por que ansiedade afeta o corpo?
Ansiedade crônica mantém o cérebro em estado contínuo de alerta.
Isso significa ativação persistente de sistemas relacionados ao estresse:
- aumento de cortisol
- hiperativação simpática
- pior qualidade do sono
- inflamação crônica
- maior desgaste cardiovascular
- alterações metabólicas
- pior recuperação física e mental
Na prática, o corpo passa a funcionar como se estivesse em “modo ameaça” o tempo inteiro.
E o organismo humano não foi feito para viver permanentemente em sobrevivência.
O risco cardiovascular chamou atenção
O estudo mostrou aumento de mortalidade cardiovascular principalmente em pessoas com:
- Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)
- Transtornos mistos de ansiedade e estresse
Isso reforça algo importante na medicina moderna:
Saúde mental e saúde física não funcionam separadas.
O cérebro influencia:
- pressão arterial
- frequência cardíaca
- inflamação
- metabolismo
- adesão ao tratamento
- qualidade do sono
- comportamento alimentar
- uso de substâncias
- sedentarismo
Ou seja: tratar ansiedade também é prevenção clínica.
O dado mais preocupante: suicídio
Um dos pontos mais importantes do estudo foi o aumento importante no risco de:
- morte por suicídio
- tentativa de suicídio
Pessoas com transtorno do pânico apresentaram risco particularmente elevado de tentativa de suicídio.
Isso quebra um mito muito comum:
“Ansiedade não oferece risco.”
Oferece, sim.
Especialmente quando associada a:
- desesperança
- insônia crônica
- impulsividade
- exaustão emocional
- isolamento
- sensação contínua de ameaça
Um problema de saúde pública
O artigo destaca que transtornos de ansiedade estão entre as condições psiquiátricas mais prevalentes do mundo.
Mesmo assim:
- muitas pessoas nunca recebem diagnóstico
- outras normalizam sofrimento intenso
- parte abandona tratamento precocemente
- existe enorme dificuldade de acesso a tratamento adequado
Os próprios autores reforçam que estratégias de prevenção, rastreio e tratamento precisam ser ampliadas globalmente.
Ansiedade não é fraqueza
Existe uma tendência cultural de romantizar produtividade enquanto o cérebro está adoecido.
Muita gente funcional:
- trabalha
- treina
- performa
- sorri
- entrega resultado
…mas vive internamente em estado permanente de exaustão fisiológica.
O problema é que o corpo cobra.
Às vezes em forma de insônia.
Às vezes em forma de hipertensão.
Às vezes em forma de colapso emocional.
E às vezes tarde demais.
O que fazer?
Se ansiedade está afetando:
- sono
- concentração
- relações
- desempenho
- alimentação
- humor
- rotina
- saúde física
isso merece avaliação profissional.
Tratamento baseado em evidência pode incluir:
- psicoterapia
- atividade física estruturada
- mudanças de estilo de vida
- higiene do sono
- intervenções psicossociais
- medicação, quando indicada
Cuidar da saúde mental não é luxo.
É prevenção.
Referência científica
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