Por Dra. Jennyfer Domingues | Psiquiatra
Todos os dias vemos mensagens que reforçam a mesma ideia:
“Uma bebida para relaxar.”
“Uma cerveja para perder a vergonha.”
“Algo para ficar mais solto na festa.”
Mas existe uma pergunta importante que raramente fazemos:
O que acontece quando a única forma de enfrentar uma situação social passa a ser através de uma substância?
Como psiquiatra, frequentemente atendo pacientes que não procuram ajuda inicialmente por causa do álcool ou da cannabis. Eles chegam falando de ansiedade, insegurança, medo de julgamento ou dificuldade para se relacionar.
E muitas vezes descubro que a substância entrou na vida deles como uma tentativa de resolver exatamente isso.
A ansiedade social vai muito além da timidez
Existe uma diferença importante entre ser tímido e viver com ansiedade social.
Pessoas com Transtorno de Ansiedade Social costumam experimentar um medo intenso de serem julgadas, rejeitadas ou avaliadas negativamente pelos outros.
Não é apenas desconforto.
É sofrimento.
É deixar de participar de reuniões.
É evitar apresentações.
É revisar mentalmente uma conversa durante horas depois que ela aconteceu.
É sentir que qualquer erro pode ser visto por todos.
Por que algumas pessoas recorrem ao álcool ou à cannabis?
Uma revisão publicada na Current Psychiatry Reports mostrou que indivíduos com ansiedade social apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas relacionados ao uso de substâncias.
A explicação parece simples:
A substância oferece um alívio rápido.
Por alguns momentos, a ansiedade diminui.
A autocrítica fica menos intensa.
As interações parecem mais fáceis.
O cérebro aprende rapidamente essa associação.
E é aí que mora o risco.
O alívio é real. O problema é o preço.
Um dos pontos mais interessantes do estudo é que o álcool pode reduzir a sensação subjetiva de ansiedade em algumas situações sociais, mesmo sem alterar significativamente as respostas fisiológicas do organismo.
Em outras palavras:
A pessoa sente que está melhor.
Mas não necessariamente está aprendendo a lidar com a ansiedade.
Isso faz com que ela passe a acreditar que só consegue funcionar socialmente quando bebe.
Na prática clínica, costumo dizer que o problema não é apenas a substância.
É a dependência psicológica que se cria em torno dela.
O ciclo silencioso da ansiedade social
Muitos pacientes descrevem um ciclo parecido:
- Surge uma situação social.
- A ansiedade aumenta.
- A substância é utilizada para aliviar o desconforto.
- O evento acontece.
- Surge um alívio temporário.
- O cérebro aprende que aquela foi a solução.
Com o tempo, a confiança deixa de ser construída internamente e passa a depender de algo externo.
Esse é um dos mecanismos que ajudam a explicar por que pessoas com ansiedade social apresentam maior risco de desenvolver transtornos relacionados ao uso de substâncias.
O que quase ninguém fala: a ansiedade continua depois do evento
Existe outro fenômeno muito comum chamado de processamento pós-evento.
É quando a pessoa passa horas ou dias analisando tudo o que aconteceu:
“Será que falei algo errado?”
“Será que perceberam que eu estava nervoso?”
“Deveria ter respondido diferente.”
A revisão destaca que esse padrão de ruminação pode aumentar o sofrimento emocional e contribuir para o uso de álcool ou cannabis como forma de aliviar esse desconforto.
Tratar a ansiedade muda mais do que os sintomas
Quando tratamos adequadamente a ansiedade social, não estamos apenas reduzindo o medo.
Estamos devolvendo autonomia.
O objetivo não é que a pessoa consiga falar em público porque bebeu.
É que ela consiga falar em público porque aprendeu que é capaz.
Através de psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando necessário e estratégias de enfrentamento adequadas, é possível reduzir significativamente o sofrimento e melhorar a qualidade de vida.
Uma reflexão final
Nem toda pessoa que bebe para socializar tem ansiedade social.
Mas quando alguém acredita que só consegue ser aceito, interessante ou confiante através de uma substância, vale a pena olhar para isso com atenção.
Às vezes, o problema não é a falta da bebida.
É o excesso de medo.
E medo também pode ser tratado.
Referência
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