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Psiquiatria e Cirurgia Bariátrica: o que médicos realmente pensam — e por que isso impacta o cuidado dos pacientes

Sumário

Artigo escrito por: Dra. Jennyfer Domingues

A obesidade deixou de ser uma questão exclusivamente metabólica há muito tempo. Hoje, sabemos que ela envolve comportamento, neurobiologia, contexto social e, inevitavelmente, saúde mental.

Mas existe um ponto pouco discutido — e que muda completamente o desfecho dos pacientes:

Como os próprios psiquiatras enxergam a obesidade e a cirurgia bariátrica?

Um estudo recente publicado no Turkish Journal of Psychiatry analisou exatamente isso — e os resultados são mais reveladores do que parecem.


O que a ciência mostra: conhecimento existe, mas não é aplicado

O estudo avaliou 244 psiquiatras e residentes e trouxe um dado curioso:

  • 82,8% sabem definir obesidade corretamente
  • Mas 71,3% não registram peso e altura na prática clínica

Isso revela um fenômeno importante:

Saber não significa integrar ao raciocínio clínico.

Na prática, a obesidade ainda é frequentemente tratada como algo “secundário”, mesmo sendo um fator central para depressão, ansiedade e qualidade de vida.


Cirurgia bariátrica: aceitação existe, mas com hesitação

Outro dado relevante:

  • 69,7% dos psiquiatras encaminhariam pacientes para cirurgia quando indicado

Ou seja, há uma percepção positiva da cirurgia.

Mas ao mesmo tempo:

  • Muitos relatam insegurança sobre complicações
  • Existe dificuldade em lidar com o pós-operatório
  • E há barreiras relacionadas à adaptação do paciente

Isso cria um paradoxo clínico:

O tratamento é reconhecido como eficaz, mas ainda assim subutilizado.


O papel do psiquiatra vai muito além de “liberar” a cirurgia

Existe um erro conceitual importante:

Muitos ainda enxergam a avaliação psiquiátrica como um “check” pré-operatório.

Mas na prática, o papel do psiquiatra é muito mais complexo:

Antes da cirurgia

  • Avaliar capacidade de decisão
  • Identificar transtornos alimentares
  • Entender relação emocional com o corpo
  • Mapear risco de baixa adesão

Depois da cirurgia

  • Monitorar adaptação psicológica
  • Prevenir recaídas alimentares
  • Avaliar risco de depressão e suicídio
  • Trabalhar identidade corporal

A literatura mostra que o seguimento psiquiátrico é determinante para o sucesso a longo prazo


O que ainda gera confusão entre psiquiatras

O estudo também evidenciou inconsistências importantes:

Condições mais vistas como contraindicação:

  • Transtornos psicóticos
  • Uso de substâncias
  • Transtornos alimentares

Condições geralmente NÃO vistas como contraindicação:

  • Ansiedade
  • Transtornos de personalidade

O problema?

Não existe consenso absoluto.

Isso leva a decisões diferentes dependendo do profissional — o que impacta diretamente o acesso do paciente ao tratamento.


Por que tão poucos pacientes fazem cirurgia bariátrica?

Mesmo sendo eficaz, apenas 0,1% a 2% dos pacientes elegíveis realizam a cirurgia no mundo

Os principais motivos:

  • Estigma social
  • Medo de complicações
  • Falta de informação
  • Insegurança dos próprios médicos

E aqui entra um ponto crítico:

A barreira não está só no paciente — está no sistema.


O verdadeiro problema: falta de integração

A obesidade exige abordagem multidisciplinar.

Mas, na prática, o que vemos é fragmentação:

  • Endocrinologia foca no metabolismo
  • Nutrição foca na dieta
  • Psiquiatria entra tardiamente

Quando deveria ser o contrário.

O estudo reforça que:

A ausência de integração entre áreas compromete o tratamento desde o início


O que precisa mudar na prática clínica

A partir dos dados, fica claro que três pontos são fundamentais:

1. Padronização da avaliação psiquiátrica

Menos subjetividade, mais critérios estruturados.

2. Formação específica em obesidade

Quase 30% dos psiquiatras relatam conhecimento insuficiente

3. Participação ativa no pós-operatório

Não é opcional — é parte do tratamento.


O que isso significa para o paciente

Se você está considerando cirurgia bariátrica, isso precisa ficar claro:

  • Não é apenas um procedimento físico
  • Não é solução isolada
  • E não funciona sem acompanhamento psicológico adequado

A cirurgia muda o corpo.

Mas é o funcionamento mental que sustenta o resultado.


Conclusão

A cirurgia bariátrica é uma das intervenções mais eficazes no tratamento da obesidade grave.

Mas seu sucesso depende de algo que ainda é subestimado:

A qualidade da avaliação e do acompanhamento psiquiátrico.

Enquanto houver lacunas de conhecimento, insegurança clínica e falta de integração, muitos pacientes continuarão sem acesso ao tratamento que poderia transformar suas vidas.


Referência do artigo

Koçyiğit Y, Çap D, Bıçakcı Ay Ş.
A Psychiatric Perspective on Bariatric Surgery and Obesity: What Do Psychiatrists Think and Do?
Turkish Journal of Psychiatry, 2026.
DOI: https://doi.org/10.5080/u27725

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Redator do Site MentalDoc

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