Por Dra. Jennyfer Domingues, médica psiquiatra | Doutoranda UNICAMP
Você pode tratar a síndrome dos ovários policísticos (SOP) com excelência…
E ainda assim a paciente continuar sofrendo.
Porque, muitas vezes, o problema não está só no ovário.
👉 Está na mente.
Uma meta-análise recente com mais de 4.000 pacientes mostrou um dado que deveria mudar completamente a prática clínica:
👉 Mulheres com SOP têm quase o dobro de risco de desenvolver ansiedade
E mais:
👉 Quase 1 em cada 2 mulheres com SOP apresenta sintomas de ansiedade.
SOP não é só hormonal — é sistêmica (inclusive emocional)
A SOP é uma condição complexa, com impacto em múltiplos sistemas:
- Resistência à insulina
- Alterações hormonais (hiperandrogenismo)
- Alterações metabólicas
- Irregularidade menstrual
- Infertilidade
Mas existe uma camada frequentemente negligenciada:
👉 o impacto psiquiátrico.
Ansiedade, depressão, distorção de imagem corporal, sofrimento emocional.
E isso não é secundário.
É parte da doença.
O número que muda tudo
A meta-análise encontrou:
- Prevalência média de ansiedade: 48%
- Risco quase 2x maior em comparação com mulheres sem SOP
Isso coloca a SOP não apenas como uma condição endócrina —
mas como uma condição com alto risco psiquiátrico associado.
Por que a SOP aumenta tanto a ansiedade?
A resposta não é única. É multifatorial.
1. Alterações hormonais e metabólicas
- Hiperandrogenismo
- Resistência à insulina
- Inflamação crônica
Esses fatores impactam diretamente:
👉 neurotransmissores
👉 eixo do estresse (HPA)
👉 regulação emocional
2. Impacto na imagem corporal
A SOP frequentemente envolve:
- acne
- ganho de peso
- aumento de pelos (hirsutismo)
- queda de cabelo
Isso afeta diretamente:
👉 autoestima
👉 percepção de identidade feminina
👉 interação social
E isso, isoladamente, já é um gatilho importante para ansiedade.
3. Infertilidade e imprevisibilidade do corpo
Irregularidade menstrual e dificuldade para engravidar geram:
- insegurança
- perda de controle
- antecipação negativa constante
👉 O corpo deixa de ser previsível — e isso aumenta ansiedade.
4. Carga crônica de doença
SOP não é um evento.
É uma condição contínua.
E viver com uma condição crônica:
- aumenta vigilância interna
- gera preocupação constante
- exige adaptação contínua
👉 Isso sustenta um estado de alerta persistente.
O problema: ninguém está olhando para isso
Na prática clínica, o que acontece?
- Foco em anticoncepcional
- Foco em resistência à insulina
- Foco em fertilidade
E a saúde mental?
👉 Fica em segundo plano.
Ou nem entra na consulta.
O impacto disso no tratamento
Ignorar ansiedade em pacientes com SOP não é neutro.
Isso leva a:
- pior adesão ao tratamento
- mais dificuldade com dieta e exercício
- abandono de acompanhamento
- pior qualidade de vida
👉 E, no fim, pior evolução clínica.
O ponto mais importante: comportamento
Assim como em outras condições crônicas:
👉 o comportamento medeia o desfecho.
Pacientes com ansiedade:
- evitam mudanças
- têm mais dificuldade de consistência
- apresentam maior autocrítica
- entram em ciclos de frustração
E isso interfere diretamente no tratamento metabólico.
O que deveria mudar na prática clínica
Se a gente leva ciência a sério, algumas mudanças são obrigatórias:
✔ Triagem ativa de ansiedade
Não esperar a paciente falar.
✔ Explicação psicoeducativa
Mostrar que:
👉 “não é frescura — é parte da SOP”
✔ Intervenção precoce
Ansiedade tratada → melhor adesão → melhor evolução
✔ Integração de cuidado
Psiquiatria + ginecologia + estilo de vida
SOP é um diagnóstico corporal — com consequências emocionais reais
E talvez esse seja o maior erro atual:
👉 tratar SOP como um problema hormonal isolado.
Quando, na verdade:
👉 é uma condição que atravessa corpo, comportamento e mente.
Conclusão: tratar hormônio sem tratar a mente é tratamento incompleto
Se quase metade das pacientes tem ansiedade…
Isso não é detalhe.
Isso é parte central da doença.
👉 E ignorar isso é perder o principal determinante de evolução.